sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Metade – Oswaldo Montenegro

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

De Volta Em Crônicas E Movimentos De Peões

Você então se pega a escutar um velho disco, um velho e bom disco que mesmo com seu som antigo, ainda trás consigo todo o charme de uma melodia indiscutivelmente “incomparável” a qualquer outra música.

Entre um gole e outro, um trago no cachimbo de briar, que levemente queima posto em descanso ao lado da vitrola, trazendo consigo, junto ao cheiro forte do turco selvagem e da bebida destilada que ali se põe no vidro arredondado, reflexões sobre as situações mais comuns que se mostram perante a vida de um homem, este no caso o que vos fala.

Em outros tempos minha linha de raciocínio implicaria que nenhuma dessas situações mereceriam tamanha dedicação reflexiva, mas hoje não. Ao menos não depois de tantos percalços e superações alcançadas, problemas insolúveis que hoje facilmente seriam resolvidos, e alegrias inabaláveis que hoje são facilmente dispensáveis pros planos “maduros” que se fazem presentes.

Então vem a dúvida do “por que então se preocupar com isso?!”

Por que essas agora, são as reflexões e problemas da minha época, por que de certa forma, constato eu nesse exato momento, que não temos uma vida apenas, não no sentido de haver uma vida pós morte, ou algo nessa linha, mas sim na situação de que homens, no sentido amplo da palavra, vivem várias vidas no intervalo de apenas uma, entretanto poucos percebem isso, ou não. Mas quem se importa!?

Se pesa em um futuro, se o mesmo seguirá fielmente os planos traçados, ou se fugirá novamente, muitas vezes de forma absurda como já fugiu dos antigos rascunhos, e já não mais se vê na situação de “ser astronauta, médico ou ator de filme de bang-bang”. Mas o que na verdade surge de fato, é a dúvida crucial que move o intelecto mesmo que não intencionalmente, haverá um!? De fato, haverá um futuro!?

Pragmatismo da minha parte talvez, claro que não adianta focar horas da vida em reflexões sobre esse assunto, até porque convenhamos, pensar demais sobre isso impede de percebermos o que, e como agir no agora. Seria muito mais viável, tornar o presente um movimento linear de um peão, que possivelmente será o ponto inicial para um “xeque-mate” jogadas a frente.

Gostei disso, um xeque-mate por mais importante e objetivado que seja, sempre partiu de um movimento inicial e linear de um simples peão.

Tirei um tempo de férias, consequentemente passei dias sem escrever nada, nem pensar sobre coisas realmente importantes para serem escritas, ou até pensei, mas de alguma forma foram esquecidas por outras coisas, que provavelmente tinham mais importância na hora, ou não.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Angústia

E com batidas aceleradas, ia remoendo e mastigando a dor que o consumia, como se as lágrimas que estavam presas ali, assim tivessem que permanecer, já que não conseguia mais pensar na dor como algo que o fizesse se sentir vivo.

A alma cansada do sofrer alheio e do próprio aos poucos ia sucumbindo, deixando um vazio na mente que horas e outras ia sendo ocupado por lapsos de pensamentos que aparentemente seriam a única saída. Já não resistia mais o corpo daquele que ante os problemas se mantinha firme e imutável, sem se que uma gota a menos.

O querer juntar-se as sombras ia aumentando gradativamente a cada lento minuto que deixava de passar, e que nenhum sinal era dado, para surgir novamente a esperança do estar errado.

A saudade consumia-o ao mesmo tempo em que a amargura e a angústia fulminante acompanharam-no, passo a passo, pelos 1.440 minutos que ele manteve o pensamento atento ao que, a todo custo, tentou esquecer naquele dia.

Não chovia, não por fora, mas a tempestade que o afligia era sem dúvida mais dolorosa e cruel que qualquer intempérie física. E os raios que caiam, se quer tocavam o chão, pois voltavam-se ferozmente para dentro de si.

E quantas outras vezes pensou em esconder o choro sob a água fria do chuveiro, mas manteve-se ali, inerte letra após letra, gole após gole, sem uma gota derramada, não por orgulho, mas pelo cansaço do passado que achou perdido como um livro velho que à muito não era aberto.

Não chorou, agiu apenas como se apenas estivesse recapitulando os fatos. Pensou mil vezes e nenhuma delas o impediu de baixar a guarda, o que mesmo assim, de nada adiantou, já que no dia, ninguém, esteve presente para aplicar-lhe um direto de esquerda que o deixasse com a vista embaçada e o queixo dolorido. Sofreu pelo não sofrer. Sofreu pela incerteza do que achou certo mesmo sem querer, mais que agora era o que menos desejava.

Restou-lhe apenas o adeus, nada mais que o gosto ruim e a solidão da semi-luz, que iria, pelo visto, acompanhá-lo fielmente pelo resto do caminho que decidiu percorrer.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

E entre a garrafa meio cheia, e o copo quase vazio, a solidão era quebrada apenas pela voz tocada em notas e sons roucos e distorcidos.

A aflição do estar só era aos poucos suprimida pelo sono, e pela pilha de papeis sobre a mesa à espera de uma coragem que não chegava, mas que pouco importava diante do real motivo de não dedicar-me as palavras miúdas e do trabalho cansativo de obrigações que acho cada vez mais incondicionais ao que me vi a fazer no passado.

A dor sim, essa era o ponto que tanto oscilava e remoia-se dentro do meu eu enquanto ardia a garganta ao ser tocada pelo malte envelhecido. Era ela, essa dor, que me impedia de pensar, e mesmo na obrigação, mantinha-me mais uma noite em claro, o que me renderia certamente olhos fundos e lagrimas secas na manhã seguinte.

A solidão não doía pelo agora, não apenas por ele, mas martelava e perfurava com a força de uma vida que pendia sobre a faca para que até o talo de sua lâmina alcançasse o mais profundo dos cantos do que já nem achei que existia. Era uma dor que chorava por saber ser real, pelo saber que em outros tempos já estivera ali, presente, e que agora insistia em voltar e se mostrar com sorriso torto de quem embriaga-se no sofrimento alheio.

Seca mais um copo, vai-se mais da garrafa, mas nada suficiente para afogar-me, não ainda, não desta vez, mesmo que a dúvida sobre o querer persista e fique acenando e gritando no fundo pensante.

Ouço cada palavra, é como se em cada letra diferente, com ritmos diferentes, estivesse presente o mesmo assunto, a mesma tecla batida, o mesmo acorde desafinado que mancha o papel pautado de notas acertadas.

[...]

“Ponho meu sapato novo e vou passear sozinho, como der, eu vou até a beira, besteira qualquer”

- Los Hermanos.